ALMA REPARTIDA
Jose Manuel Vicente Jorge Raposo



Palavras preambulares


        Entre as expressões artísticas do espírito humano, a poesia ocupa posição de primazia singular, talvez por ser também a mais perfeita exteriorização da espontaneidade dos sentimentos multiformes que animam e definem  o Homem, na sua marcha pelos caminhos existenciais.
        Por vezes, tão bela, sublime e penetrante que até chega a superar a pulcritude de outras expressões artísticas, quer literárias, quer das artes plásticas, a poesia permite-nos também uma relacionação mais profunda com o mundo em que vivemos, e uma maior compenetração intrepretativa dos seres que nos acompanha e circundam.
        A poesia de JOSÉ  M. RAPOSO  é comcebida como expressão intuitiva-espontânea, muitas vezes em moldes repentistas, de um coração sincero, ora embalado em emoções românticas decantadas com ternura cativante, ora impelido por impulsos vulcânicos delineados com o furor dum Vesúvio.
        ALMA REPARTIDA apresenta-se como uma obra poética própria, original e simples na sua ocasional complexidade, que reflecte também preocupações de natureza filosófica. Através dos seus poemas, vislumbramos o saudosismo que inspirou as suas quadras românticas, ouvimos as ondas do Atlântico osculando as lindas costas açorianas, sentimos as carícias do Sol Lusitano, e ficamos mais cientes das dimensões quase infindas da alma dum Povo que soube dar novos horizontes e novos mundos ao mundo.
        ALMA REPARTIDA . . . , uma alegria, uma dor, um abraço, uma lágrima, um desabafo, um rugir de fúria, um grito de vitória, um eco de amor e romance . . . , um sonho de JOSÉ M. RAPOSO, um dinâmico realizador.
                
                
                        Fernando M.S. Silva, Ph. D.
                        University of California
                        Berkeley, California



DEDICATÓRIA


        Publicar um livro ?!

        Um sonho que se tornou realidade e que em parte devo a minha Avó, a tia Valéria, como era conhecida. Nascida  na Bretanha, na Ilha de São Miguel, Açores, criada nas Sete Cidades e depois por via de casamento, transplantada para a Ribeira do Ferreiro em Candelária foi a força principal por detráz da minha educação e instrução.
        Mulher robusta, de cara rosada, olhos azuis e com um cabelo esbranquiçado onde se poderiam ver ainda alguns traços loiros, indicativos da sua ascendência Francesa.
        A ela muito devo. Não foram em vão os dias que com ela ia levantar ou entregar a roupa às casas dos Senhores da cidade:
        O Sr. Aníbal da Tabacaria, o Sr. Pires do Cogumbreiro, o Sr. Raposo dos Carregadores Açoreanos e tantos outros que agora me não lembro. Quer fizesse chuva ou Sol eu lá ia todas as Segundas e Sextas-feiras antes de ir para a Escola Industrial esperar por ela à camioneta do "Melo & Martins".        
        Se por acaso as minha notas nos estudos não lhe agradavam ela quando visse o professor pedia-lhe que ele me puxasse as orelhas . . .
        Orgulho-me de ser descendente de tão honrada mulher e que dedicando este livro à sua memória é um obrigado tardio e uma forma de reconhecer que talvez  a ela mais do que ninguém, devo  o ser quem sou.
    


                                                                                                                                    J.M.V.J.R







                AGRADECIMENTOS





               Quero sinceramente agradecer a minha mulher a paciência que teve comigo durante os longos dias em que por cima ora da mesa da cozinha, do sofá, ou no chão se encontravam espalhados os meus versos a fim de os melhor seleccionar. Que ela veja nos meus poemas a Santa que tem sido e as palavras que por vezes não digo e que são a prova do muito que lhe quero.
        Também ao meu grande amigo o Senhor Professor Doutor Fernando Manuel Soares Silva da Universidade da Califórnia em  Berkeley quero agradecer o especial favor da revisão do meu manuscrito e pelos conselhos que me deu, fruto da sua erudição e sabedoria.
       



                                                                                                                                                             J.M.V.J.
AO LEITOR




        Desconheço a origem da minha veia poética, nem tão pouco procuro analizar a minha poesia. Isso deixo ao critério do leitor que espero goste e que possa tirar algo de útil.
        No entanto sinto  que alguns  dos meus poemas são gritos de um subconsciente e expressões vivas de pensamentos que depois de transmitidos ao papel me deixam algumas vezes estupefacto pela  forma complicada, romântica e até filosófica do seu conteúdo.
        Vejo agora em vários, o rapaz de fora da cidade como alguns  dos meus colegas citadinos me chamavam e o menino de estudo como os meus companheiros de aldeia diziam.
        Vejo o Português que, nestas terras da Califórnia se radicou e o Americano como me chamam, quando visito a minha terra de origem.
        Repartido assim entre dois países, pertenço a ambos  e ao mesmo tempo não sou de nenhum.
        Acarretando ainda aos ombros a complexidade da diáspora, procuro entre o Catolicismo inobliterável e inquestionável da minha infância ilibar as ilécebras ilusórias da realizabilidade da vida quotidiana, alcançar a nirvana e encontrar a razão da minha existência.
        Ferve-me o sangue nas veias  ao verificar a injustiça do homem que não olha aos meios para atingir os fins da sua vanglória, esquecendo-se que virá o dia em que a "MÃO DA JUSTIÇA", mas duma justiça verdadeira o julgará no Além, que mais tarde ou mais cedo, indubitávelmente chegará.
    
        


                                                                                                                                                    J.M.V.J.R.




                     Plantei árvores. Vi-as creser !
                    Também um filho já fiz.
                    Faltava-me um livro escrever
                    para me sentir feliz . . .




ALMA REPARTIDA





Eu nasci no meio do mar
pelas ondas embalado.
Pr'a outro mundo atirado,
até soube o que é penar.

Vim por ventos fustigado.
Atravessei continentes.
E no meio de outras gentes
senti-me às vezes deslocado.

À procura do maná . . .
Abandonei minha terra.
E por vencer esta quimera
não sou daqui nem de lá.

Transformei a minha vida,
mudei sonhos e paixões.
Num mundo de ilusões,
sou uma alma repartida.





          10 de Agosto de 1993












        A MEU FILHO.





No dia que tu nasceste,
os pássaros cantaram com  mais alegria . . .
As rosas que restavam da primavera
e que se encontravam meias moribundas,
tornaram-se mais vivas para te darem
as boas vindas . . .
Naquele dia, tu eras o centro do mundo.
Eras vida.
Eras Fé.
Eras Esperança.

Os dias passaram  . . .
Alguns pássaros deixaram de cantar.
Algumas rosas morreram.
Outras mais lindas nasceram
brancas, vermelhas, amarelas . . .
E, tu  como elas
passaste de bébé a criança.
Deste os primeiros passos.
E, julgaste que poderias correr o mundo . . .
Começaram as quedas,
as esfarrapadelas,
os cortes no queixo,
os pontos, as cicatrizes.
Foram dias difíceis, mas felizes.
Foste para a escola . . .
Ficaste admirado !
Falavam uma língua diferente.
Mas em pouco tempo,
o obstáculo tu venceste
e como os outros estudaste e aprendeste.

Passaram-se os anos de criança . . .
e a juventude deu-te mais força,
mais curiosidade e mais saber.
E tu não paraste de crescer . . .
Vieram as discussões  . . .
As revoltas, as zangas.
diferença de opiniões . . .

Os respeitos ?
Ficaram como que igualados.
Os direitos e os deveres misturados
numa confusão de valores.

Nesta vida nem tudo é brilho,
só compreenderás o que é ser filho,
No dia  em que tu Pai fores . . .




                    24 de Agosto de 1993










AI QUE SAUDADES EU TENHO.


Ai que saudades eu tenho
daquele dia de Primavera
em que ela estava à minha espera.

Ai que saudades eu tenho
das flores daquele jardim.
Da rosa, da camélia e do jasmim.

Ai que saudades eu tenho
do perfume dos seus cabelos.
Como eram lindos e belos.

Ai que saudades eu tenho
daquele seu olhar mimoso.
Como era cândido e bondoso.

Ai que saudades eu tenho
dos seus lábios amorosos.
Como eram frescos e saborosos.

Ai que saudades eu tenho
de toda aquela felicidade
que não foi sonho mas sim realidade.

E de a tornar a ver?
E de junto a mim para sempre a ter?
Ai . . .  que saudades eu tenho.





                    31 de Janeiro de 1970
 


PORQUÊ?





Porque é que o homem acredita
numa promessa qualquer
sem em nada o dignifica
cobiçar outr mulher?

Porque é que às vezes sente
esse desejo carnal,
transformando a sua mente
numa confusão infernal?


Porque é que a Natureza
dessa maneira o dotou?
Não será uma fraquesa
desejar a mulher que passou
e dizer que foi a beleza
que ela tinha que o tentou?



        22 de Fevereiro de 1994





I S I L D A    





Brilho não tinham as estrelas . . .
Do Sol raios já se não viam.
Até das chamas das velas,
só sombras negras subiam.
No jardim as flores mais belas
Uma a uma morriam.

Eu nem sei como batia
o meu coração cansado.
De noite dormir não podia,
de dia sonhava acordado.
Nem a própria morte queria
que eu estivesse a seu lado.

O que o pássaro cantava
com tamanha alegria,
aos meus ouvidos soava
como gritos de agonia.
De tão vermelho que o céu estava
que até sangue chovia . . .
Chamava e ninguém ouvia
o meu grito abafado. . .
E eu aos poucos morria
em minhas lágrimas afogado
pois que nas veias sentia
o meu sangue já gelado.

Inesperadamente aparecia
Sol para me aquecer
Iluminando assim meu dia . . .
Luz que me fez ver
Dando a quem morrer queria
A razão para viver.





            13 de Setembro de 1993

        



    CORAÇÃO





Tu é que foste a inspiração
de muitos dos meus poemas
e agora és a razão
d'alguns dos meus problemas.

Quereria só que apenas
me pudesses compreender.
Pois a vida sem dilemas
não vale a pena viver.

Não o mostro a todo o mundo
na palma da minha mão
poderá estar muito fundo
mas eu tenho coração.

O teu está à superfície
não é preciso procurá-lo
mas se fizeres um sacrifício,
o meu, vais encontrá-lo.





                 8 de Agosto de 1993

         


        À FRANCESA




Mesmo por cima das nossas cabeças,
pairam gaivotas no ar.
Ouvem-se os seus gritos famintos
como quem pede misericórdia.
Esperando que apareça alimento
sobre a ondas revoltas do mar.

É tão belo agora o seu voar!
Sempre lento e tão seguro.
E voltam de novo a pairar
como quem espera o futuro.

Quizera eu, também ser gaivota
para toda a vida te seguir.
Comtemplar do mar a vastidão.
Dos teus olhos o brilho e a sensação
Que por instantes me fizeste sentir.

Julgo estar a sonhar,
embora me encontre acordado,
pois fiquei como que hipnotizado
só por instantes teus olhos fitar.
É uma ilusão. Mas que importa
o destino ter de nos separar?
Só quero que ao veres uma gaivota
pairando no ar à tua volta
te lembres que eu te quiz amar.

    
        


            Bordo do Funchal, Outubro 1971


        


    AMIZADE





Sinto nos lábios o sabor
do beijo que nós não demos.
E nos braços o calor
do abraço que não quizemos.

Sinto o corpo a tremer
pelo contacto que não tivemos
e o coração a bater
por aquilo que não dissemos.

Sinto no ar o lamento
que me prolonga o tormento
dos nossos suspiros e ais.


Mas digo-te com sinceridade,
Mulher . . .  a nossa amizade
vale muito. Muito mais.





                23 de Novembro de 1978


 


    NÃO ÉS NADA ?!





Não és nada ?!
É mentira, e bem o sabes
que um dia serás alguém,
se já não o és sem saberes.
Vives assim abandonada,
triste e só desprezada.
Por tudo e por todos és odiada.
Todos te querem,
todos te desejam,
todos te adoram ver.
Mas, ninguém te ama a valer.
Não és nada. Dizes tu.
Mas foi do nada que Deus criou o mundo.
Foi do nada que nasceu meu amor profundo.
Não és nada ?!
Mas porque pensas assim ?
Não vês que é absurdo ?
Se, para alguém não és nada,
não te sintas abandonada,
porque para mim és tudo.

            



                    Tavira, Maio de 1971











PELA ESTRADA FORA





Pela estrada fora
vamos andando,
ambos pensando
no que somos agora.


Tudo em redor
é alegria.
Terna magia,
tudo é amor.


Não queres que eu veja
a Natureza,
da tua beleza
a sentir inveja.


Aquele jasmin
já não tem perfume.
Será do ciúme
que tem de mim ?

Até a Natureza
à tua passagem,
rende homenagem
à tua beleza.


Um pássaro maldoso
quiz-te bicar.
Eu fiz-lhe mal,
quebrei-lhe uma asinha.


Fico então vaidoso
só ao pensar
que afinal
és sòmente minha.


        


                15 de Abril de 1974
    









TO SOMEONE WHO . . .





Only a friend would open it's heart as you did.
Taking out all the ghosts of your dreams,
for I could listen of your soul the screams.
How could I ignore
your young and beautiful face
the problems you had,
and I was sure nobody cared?
So I listened till the end.
And when you had finished
I had made a friend.
Oh God!
Were you scared?!
But, I will be here any time you come.
How could you think it was the end of the rope
when a new life had just begun?


            


                    17 de Dezembro de 1978
 


        IF I COULD . . .





If I could be a
little boy again
with my childhood dreams!

How beautiful it would be
to have once more my little toys.
The lead soldiers, the ponies
the little boat and the plane.
How beautiful it would be.
To play with the soldiers in the battle field,
To run with the ponies on the mountain.
To play with the little boat at the seashore.
To make the plane fly against the rain.
To stop and begin again.
How beautiful it would be.

But I know that only the future I will see
And a little boy again I can not be.


        


                    3 de Março de 1975
 


    SÓ OS MEUS VERSOS . . .





Só os meus versos sabem o que eu faço,
quando falo verdade e quando minto.
Só eles sabem aquilo que eu passo,
só os meus versos sabem o que eu sinto.

Só os meus versos sabem a minha vida,
quem amo, quem me ama e quem me amou.
Só eles sabem quem está escondida,
só os meus versos sabem aquilo que eu sou.

Só os meus versos sabem como se chama
e quando o meu coração se ufana,
só eles sabem que amor ela me tem.

Só os meus versos sabem quem eu escondo
e quando me perguntam eu então respondo,
só os meus versos sabem e mais ninguém.


            


                11 de Novembro de 1969
 


    TEMPESTADE





Oh . . . ! Que forte é a ventania.
Não admira . . . pois é noite de invernia.
Lá fora, sopra com força o vento.
E cá dentro?
Será melhor?
Isso é que não;
Pois parece um furacão
o que vai no pensamento.
E, é pior !
Oh . . . que pecado é a ira.
E a maldita da mentira
faz questão com a verdade.
Dentro do meu pensamento,
não é preciso haver vento
pr'a se formar tempestade.



            

                
                3 de Fevereiro de 1968
 


        A MINHA AVÓ





De madrugada e à luz duma candeia
ou da chama do candeeiro a petróleo
por já não existir a luz a óleo,
lavavam roupa as mulheres na aldeia.

Algumas novas, outras já de idade.
Toalhas brancas, lençóis de várias cores.
Pertença dos ricos e  dos doutores,
que viviam à francesa na cidade.

Noites de chuva ou madrugadas frias
estavam elas a lavar nas pias
de mãos inchadas que metia dó.

Mulheres fortes, robustas e sadias
ganhavam assim o pão dos seus dias
E entre elas estava minha avó.


            


                    3 de Agosto de 1993
 


    NETO DA LAVADEIRA





Com os meus livros debaixo do braço,
saca de roupa suja, aos ombros ou  na mão,
Com minha cabeça fincada no chão
pelo peso e talvez pelo embaraço.

Mal dizendo a vida comigo só. . .
percorria  as ruas da cidade
quando tinha dez anos de idade
p'rajudar a lavadeira, minha avó

Nas casas dos meninos dos senhores,
engenheiros advogados e doutores
entrava eu Segunda e Sexta - feira.

Nunca tive a vergonha de dizer,
na escola ou outra parte qualquer
Qu'eu  era o  neto da lavadeira.


            


                    4 de Agosto de 1993






        


        




    O REMORSO





Ouço passos vagarosos na escada,
tac . . ., tac . . ., tac . . ., tac . . .
Levanto-me com tamanha rapidez.
E, de repente deixei de os  ouvir.
Mas, ei-los que começam outra vez,
mais lentos, parece o andar de um fantasma.
Taac . . . . . ., taac . . . . . .,taac . . . . . .,taac . . . . . .
Não posso ouvir aquele bater,
seja o que for quero saber. . .
Saio do quarto a fugir
e os passos continuo a ouvir,
sempre na mesma lentidão.
Eis que os ouço agora no salão,
sigo na sua direcção.
Repentinamente os passos cessaram
e em seguida duas jarras no ar se ergueram,
uma na outra bateram,
caindo em cima de um jarrão
que ficou em testos no chão.
Salto para cima de uma mesa,
e então gritei:

-Que queres de mim fantasma ?
És tu. Tenho a certeza.
Luta comigo que eu ofereço resistência,
pois nada me pesa na consciência.
Então, gerou-se tal confusão.
Não ficou nada inteiro no salão,
nem eu sei quantas vezes fui ao chão.
E quando já todo roto e semi-nú,
senti umas mãos no pescoço,
gritei:
    - Deixa-me que eu já não posso!
Mas, por favor, diz-me:
    - Quem és tu ?
Então uma voz ecoando
e como um trovão ribombando
respondeu:
    - Sou o remorso.

            




                Lisboa,13 de Julho de 1971





 








         À ELZINHA





Quando em nossa casa entraste
Nessa tarde linda e bela,
Oh Elzinha ! Tu brilhaste
Como se fosse uma estrela.

Mas no dia que  partiste
Até os céus enegreceram
de um azul cinzento tão triste
Que os pássaros emudeceram.

Quando de nós te apartavas
eu tive até a certeza
que ao mesmo tempo choravas
de alegria e de tristeza.

Tua boca queria sorrir
Teus olhos queriam chorar.
Choravas por quereres partir
Choravas por quereres ficar.

O partir deixa uma ausência
E dá-nos a realidade
Da razão para a existência
Da triste palavra "SAUDADE".





                                       2 de Fevereiro de 1990



    
                


            HEI-DE IR AO BRASIL





            Eu ainda hei-de ir ao Brasil
            Às terras do Ceará
            Abraçar o mar azul anil
            e a filha . . .  que tenho lá.

            Eu hei-de ir a Fortaleza
            e também   ao Sobral
            Onde o encanto e beleza
            no mundo não há igual.

            Hei-de ir ao Rio de Janeiro
            nem que seja um dia só
            pr'a saber do paradeiro
            dum irmão da minha avó.

            Eu hei-de ir ao sertão
            e a Ipanema "paquerar".
            Juntamente com meu irmão
            o samba hei-de dançar.

            E se eu puder então
            correrei o país inteiro        
            e trarei no coração
            esse povo Brasileiro.





                    10 de Agosto de 1993







    FOLHA CAÍDA





Nas encruzilhadas da vida,
eu vivo os passos da morte.
Não sei qual será a sorte
desta folha caída.

Num dia de vendaval,
fui do ramo extraíada,
e entre as outras metida,
vou indo no temporal.

Serei queimada pelo lume,
ou num monte de estrume
ficarei a apodrecer.

E depois de apodrecida,
voltarei de novo à vida,
para tornar a morrer.





                    8 de Agosto de 1993
 


    MENOS UM





Foi-se o dia  . . .
e o Sol com seu clarão
leva a alegria.
Veio a noite com tristeza e escuridão,
redobrar a melancolia
que há na alma dum cristão.
E amanhã quando amanhecer
e o Sol de entre as nuvens despontar,
é então que irei compreender
que irei mais um dia começar
e terei menos um para viver.


            


                    20 de Fevereiro de 1968
 


NÃO ENCOSTES  À  MURALHA





O porto onde deste entrada
É que será teu enterro.
Se às  argolas de ferro
Ficares sempre amarrada.

Quebra amarras . . . dá o salto
Navega para alto mar,
Porque é mais fácil  enfrentar
Tempestades no mar alto.

E quando vires um farol,
Tem cuidado, não é o Sol,
Pode ser tua mortalha.

Maré cheia ou vazia,
Deita  âncora na baía
Não encostes à muralha.


            


                    8 de Outubro de 1992
 


    O AMOR





Se eu nestas quadras errar,
perdoai-me Jesus Senhor,
mas muita gente quer amar
sem saber o que é amor.

Amor é logo em primeiro,
tudo do que há mais forte
e se ele é verdadeiro,
pode até causar a morte.

Amor é ferida fechada.
É diamante sem brilhos!
É respeitar quem é amada
p'ra ser mãe dos nossos filhos.

Amor será o lume
que muitos olhos já viram?
Ou será o perfume
"das rosas que não abriram?"


            


                    12 de Junho de 1963
 


    PARA QUE FUGISTE ?





As lágrimas que em teus olhos pude ver
eram de dor de mágoa e de tristeza,
de dúvida desconforto e incerteza.
De rancor e de ódio não podiam ser?!

Culpa sua? Tua culpa? Culpa nossa?
Minha culpa que julgando bem fazer
companhia tua quizera eu ter
Talvez consiga . . .  Mas, não quero e dever não possa.

Das tuas lágrimas e do choro. Qual a razão?
Para que atormentas assim teu coração
com a honestidade que reina em ti?

Para que fugiste e um instante só choraste?
Será que não viste nem pensaste
que eu só durante a noite, só sofri.





                    28 de Janeiro de 1979
         


    INGRATIDÃO




Quando à minha porta tu batias
à procura de conforto . . .  e amizade,
dei-te sempre de boa vontade
até mesmo aquilo que não pedias.

Estimei-te sempre como amiga.
Respeitei-te sempre como mulher.
Nunca me arrependi de bem fazer.
Não importa aquilo que o povo diga . . .

É sempre bom poder ajudar
e por pagamento não esperar,
pois que basta a consolação.

Mas quando de ti e dos outros precisei
p'ra defender a verdade e a lei,
pagaram-me . . .  com ingratidão.




            19 de Janeiro de 1994
















    SANTA MULHER





Tu és mulher e és uma Santa!
Santa de amor e ternura
a quem eu tive a ventura
de um dia encontrar.

Tu és a mulher que eu amo.
És a Santa que eu adoro.
Por quem luto, vivo e choro.
Por quem morro, grito e clamo.

Revivo e lembro o passado,
cheio de tanta alegria,
dum sonho que eu vivia
e ao ser do mesmo acordado
em fumo se desfazia.

Tu és mulher e és uma Santa!
E reina em ti graça tanta
e é tanta a formosura
que amo a mulher que tu és
e a todo o momento desejo
voltar a ter a ventura
de me ajoelhar aos pés
da Santa que em ti vejo.


            

                    29 de Abril de 1974.



 
 


    ESTAVA SÓ





A Lua então já beijava! . . .
Vi a sombra na janela.
Quanto mais me aproximava,
melhor via que era ela.

É ela . . . , disse eu baixinho.
É ele talvez  ela dissesse !
Deu-me sinal . . . , devagarinho,
P'ra que barulho não fizesse.

Então pedi-lhe um beijo,
mas ela tinha mais desejo
e disse: - dá tu primeiro.

Na face lhe ia beijar . . . Oh!!!
Vi então que estava só
agarrado ao travesseiro.


            


                    20 de Agosto de 1967
 


        ECO





Fugiste sem de mim ter dó.
Chamei e tu não respondeste.
Nem sequer te apercebeste
que deixavas um coração só.

Em meus braços te terei jamais.
De mim para sempre está solta.
E quando eu gritava : - Volta.
Cada vez de mim fugias mais.

Fugias sem para trás olhar.
pois não querias recordar
o amor que houve entre nós.

Com mais força tornei a gritar
para depois vir a escutar
o fraco eco da minha voz.


            


                    21 de Março de 1968
 


    O QUE SERIA A VIDA?





Para quê viver na ilusão ?
Para quê alimentar uma esperança?
Se já cheguei à conclusão
que viver demais também cansa.

Não sei que hei-de fazer
se a minha tristeza não finda.
Estou cansado de viver
mas não quero morrer ainda.

Cheguei à beira do rochedo,
voltei atrás e tive medo
que o meu desejo conseguisse.

Esteve quase minha sorte decidida.
Oh meu Deus! O que seria a vida
se a morte não existisse ?


            


                    
                19 de Novembro de 1971
 


ONDE ESTÁS, FELICIDADE ?





Onde estás, felicidade?
Ao tempo que eu te desejo.
Procuro-te com ansiedade,
mas para falar verdade,
Oh meu Deus ! Nunca te vejo.

Mesmo nos tempos de criança
por ti sempre chorei.
Mas quem procura sempre alcança
e por isso tenho esperança
que mais tarde te encontrarei.

Será minha sorte cumprida.
Com muita ou pouca vontade.
Se minh'alma não for perdida
ao menos na outra vida
ver-te-ei felicidade.


        


                    16 de Dezembro de 1963
 


    NÃO HÁ SOSSEGO.





Já não há no mundo um lugar
onde se possa estar descansado,
sem de guerra e ódio ouvir falar.
Em toda a parte reina a confusão. . .
Os homens  já não se entendem,
as nações não se compreendem,
todos querem ter razão. . .
Todos os dias gente mata gente,
não olhando a quem faz mal.
Por todo o lado alastra a guerra,
e o homen senhor da Terra
voltou a ser um animal.


            


                Lisboa, 7 de Agosto de 1971
 


    PAZ DE ESPÍRITO





Como a noite é clara e bela !
Não há coisa mais maravilhosa. . .
No firmamento cada estrela
parece uma pedra preciosa.

A brisa sopra. De mansinho
o mar se espraia na areia.
Que paz, que sossego! Estou sòzinho!
Eis o que o meu espírito anseia.

Só longe do barulho e da discórdia,
em contacto directo com a Natureza,
posso pedir a Deus misericórdia.

Concentro-me e basta um segundo
para poder apreciar a beleza
Com que Ele dotou o mundo.


            


                    19 de Fevereiro de 1971
 







































 


A GRANDE HISTÓRIA DE UMA PEQUENA

            GOTA DE ÁGUA



Há muitos anos jazia
uma gota de água fria
no fundo de um grande mar.
E a luz ia buscando
por entre as outras trepando
para primeiro chegar.

Oh! Com que pressa ela andava.
Mas só as outras encontrava
e ia a dizer : - Não sei . . .
Depois de tantos trambolhões,
ia a gritar dos pulmões:
- Sempre primeiro cheguei.

Ainda não estava acabando,
já o Sol nela brilhando
em vapor a transformou.
E como mais leve que o ar,
ainda queria voar,
mas numa nuvem parou.

Disse a uma companheira:
- Tenho que ser a primeira
para a Terra vou ir.
Mas que susto ela apanhou,
quando pendurada ficou,
num ramo quase a cair.

















Então, o vento a soprou
e no chão um pouco parou,
pondo-se depois a andar.
Tinha que ser sempre a primeira
e para uma ribeira
lá foi ela repousar.

Mas que hora azarada
pois uma grande manada
pela ribeira passou.
E começando a beber,
como tinha de ser,
mais um susto ela apanhou.

Numa grande correria
e sem nenhuma alegria,
para o mar se encaminhou.
Por entre as outras trepando
com aquela pressa andando,
foi a que primeiro chegou.

À tona do mar estava
e um pouco descansava,
quando o astro Rei brilhou.
Com medo de se evaporar,
fugiu pr'ao fundo do mar
e jamais acima voltou.




                    Junho de  1962
 


    NÃO CORRAS





Não corras homem!
Não corras . . .!
Que a vida tão curta é,
que se a levas correndo,
mais curta se tornará.
E assim estás encurtecendo
mais e mais o teu caminho.

Não corras, homem!
Não corras! . . .
Ainda não compreendeste
que vais à frente sòzinho?
E embora estejas com medo,
tu continuas correndo
cada vez com mais vontade.

Não corras, homem !
Não corras . . . !
Tu não consegues alcançar
aquilo que estás pensando.
Porque a vida é um segredo,
que para se saber a verdade,
só se consegue lutando.

Não corras, homem!
Não corras . . .!
Pensa primeiro do que és capaz
e vê se antes que morras
consegues voltar p'ra tráz . . . !

            
                    23 de Abril de 1978
 


    FOI DEUS.





Mãezinha ? Que Sol  radioso !
Mas que coisa nunca vista.
É um quadro tão formoso,
diz-me quem foi o artista.

Foi  Da Vinci ou Rafael ?
Não, meu amor. Foi Deus,
e não foi preciso pincel
para dar a cor aos Céus.

Deus então foi pintor ?
Nunca soube que tal fez.
Não ! Mas foi ele o Criador
de tudo o que na Terra vês.





                    20 de Fevereiro de 1971
 


O DESTINO DO ROUXINOL





Numa gaiola doirada
tenho um lindo rouxinol.
Começa a cantar de madrugada
e só para ao por do Sol.

Canta, canta todo o dia
Seus hinos à Natureza,
Não sei se é de alegria,
não sei se é de tristeza.

Passará a vida inteira
nessa gaiola a trinar,
pois não tenho outra maneira
de ouvir o seu cantar.

E, se algum dia eu o soltar,
encontrará tal confusão,
que no mesmo instante há-de voltar
às grades da sua prisão

e voltará a cantar
p'ra me tirar da solidão.





                    26 de Fevereiro de 1971
 


      DEUS EXISTE ?





De certo que tem de existir
alguém sobrenatural
que consiga dividir
neste mundo o bem do mal.

Será então Deus esse alguém
a nossos olhos invisível
e que tal poder tem
que faz todo o impossível?

Que pensamentos os teus?
E dizes que não há Deus
só porque nunca o viste?

É um mistério profundo,
mas basta que olhes p'ro mundo
para saber que Deus existe.

            
            


                4 de Dezembro de 1968









        

        


    OUÇO E VEJO





Ouço os pássaros nos ramos cantando,
vejo a água na ribeira correndo. . .
Ouço o vento nas árvores soprando,
vejo as ondas na ribeira batento.

Ouço o trovão no céu  ribombando,
vejo o raio as nuvens rompendo.
Ouço o homem na rua praguejando,
vejo a criança com medo tremendo.

Ouço tudo o que se passa à minha volta,
e vejo a muitas milhas de distância
o que está à frente dos olhos meus. . .

Estará minha alma em pecado envolta?
Ou será devido à minha ignorância
que não te ouço nem te vejo meu Deus?





                    16 de Dezembro de 1971














A MORNING DREAM ?!





I woke up early in the morning,
and walked straight to the sofa
where she was sleeping. . .
I just stood there for a while. . .
Her face was so beautiful,
and I could see on her lips the smile.
They looked like one of the roses on the table.
Their perfume was stronger,
and the taste?. . .  I could feel it.
I wanted, but I was not able. . .
Then, my dream came to an end.
It is wrong to betray a friend,
and I had no right to disturb an Angel.


                                        


                    22 de Agosto de 1978
 


    O SILÊNCIO



O silêncio é o som do segredo
que nunca foi dito.
É o barulho da ribeira da vida
que nunca correu.
É o arranhar da pena
do poema que nunca foi escrito.
É o grito de morte da rosa
que nunca nasceu.
O silêncio é o bater da chuva
que nunca caíu.
É o encontrar da pérola
que nunca foi perdida.
É o fechar da porta que nunca se abriu
O silêncio é a ausência da vida.

                    


                    15 de Março de 1982







        O BÊBADO





Pelas ruas desertas cambaleava,
sem saber tão pouco o seu destino
um pobre homem embriagado.
O relógio da torre bateu as três da madrugada,
e ele continuava o seu caminho,
esperançado que ainda encontraria
um café,um botequim ou uma tasca
onde pudesse beber mais vinho.
E, por fim encontrou
numa daquelas ruas estreitas,
imundas, cheias de lixo
uma tasca aberta à espera
de quem entrasse a matar o bicho.
Entrou, bebeu, saiu e não pagou !
E o caixeiro no rol dos fiados assentou.
E aquele homem embriagado,
pelo espírito do alcool comandado,
continuou a andar, até que enfim
pelo sono e pelo cansaço foi vencido.

E de manhã quando o encontraram,
deste mundo havia partido.





                Lisboa, 4 de Agosto de 1971
 


    NO ESCRITÓRIO





No escritório . . . ?
É pior que um manicómio!
É só montes de papeis
por todos os cantos e lados.
Uns velhos . . . abandonados.
Outros no lixo.
São novos . . . mas foram mal preenchidos
e são patacos perdidos.
Paciência . . . !
E quando vier o patrão?
Prepara-te ! Há confissão.
E se ele insiste?
A gente resiste.
Mas?
Mas, se ele insiste?
É triste.
E senão tem consciência?
Resta fazer penitência.


        


                    2 de Fevereiro de 1968
 


    TUDO EM TI





Tudo em ti é encanto e beleza.
Elegância, ternura e bondade.
Nem eu sei como pode a Natureza.
numa só reunir tanta qualidade.

Tudo em ti é algo inexplicável.
Magnífico, sublime e singelo.
Que torna para sempre inalterável
Esse teu rosto cândido e belo.

Tudo em ti é para mim incerteza . . .
Poderei eu alimentar a frieza
dos sonhos que sustento em vão?

Tudo em ti é para mim adorável,
que formou chama viva e anulável
para sempre acesa no meu coração.


             


                    11 de Junho de 1969
 


        SEM TI





Sem ti, sou criança sem carinho.
Sou lume aceso sem ter brasas.
Sou pássaro vivo sem ter asas.
Sem ti, sou como ave sem ninho.

Sem ti, sou um mestre sem escola.
Sou mar imenso sem ter água.
Sou dor de ferida sem mágoa.
Sem ti, sou pedinte sem esmola.

Sem ti, sou o Sol sem claridade,
Sou lâmpada acesa sem dar luz.
Sem ti, sou um ser inanimado.

Sem ti, não tenho felicidade,
Sou mesmo um rosário sem cruz.
Sem ti, sou um pobre desgraçado.


            


                    24 de Maio de 1968
 


    JÓIA





Minha mulher, meu tesouro,
da prata mais delicada.
Bordada a mais fino ouro,
de diamantes cravada.

Não pode ser admirada
em pulseira ou em cordão,
porque a trago bem guardada
dentro do meu coração.

Ao meu peito aconchegadinha,
e muito bem guardadinha
ela sempre brilhará.
Mesmo quando for velhinha,
essa jóia que é só minha
jamais se ofuscará.





                    15 de Fevereiro de 1979
 


    SONHANDO





Sonhando contigo estava,
que comigo estavas sonhando.
Enquanto me ias beijando,
eu amor te abraçava.

Trazido p'la luz da Lua,.
vinha nosso amor dos Céus.
Eu te perguntava . . .  de quem és?
Tu me dizias : - Amor!  Sou tua.

De te abraçar me cansei,
mas estava-te sempre abraçando.
Sabe Deus como eu fiquei,

quando um beijo te estava dando.
Foi então que eu acordei
e vi que estava sonhando.



            

                    20 de Janeiro de 1965
 







































 


    REJEIÇÃO





Os teus olhos brilham
como estrelas no firmamento. . .
Parecem mesmo dois luzeiros
como que a indicarem o caminho da salvação. . .
Mas, quando olhados de perto,
são como os olhos da áspide
e lançam esse olhar hipnótico
que paralisa as suas vítimas. . .
A tua boca diz palavras
inatingíveis, que parecem
conter toda a honestidade
e o calor que alguém necessita.
Mas quando compreendidas
são mais perigosas do que os
cânticos das sereias . . .
Os teus braços. . .
forrados de um veludo macio
onde algumas vezes sonhei
estar envolvido
não passam de uma teia de aranha
da qual estou contente
por não ter caído.

 





Os teu seios, altas colinas
donde julgava o céu poder tocar
formam um vale da morte
donde é dificil alguém se livrar.
O teu coração . . .
Se é que o tens . . .
É como aquele que a Barbara Streisand,
(A quem tanto admiras), canta:
-"My heart belongs to me"
E o teu ser ?
Vasto campo magnético
de polaridade idêntica . . .
O que prova, que quanto  mais perto
de mim estejas . . .
tanto maior será a força
que nos separa.

                



                    1 de Dezembro de 1992
 


         RECUSA





Antigamente ofertaste
beijos que eu não queria.
Mas tu nunca pensaste
que mais tarde os pediria.

E quando na rua te vejo,
a tua atitude agora,
é que eu pague o desejo
que me oferecias outrora.

Olha lá não te rales
se eu de ti me estou rindo,
porque de certo não vales
aquilo que estás pedindo . . .

Esses beijos perdidos . . .
por esse teu amor sincero
nem dados nem oferecidos
agora já não os quero.





                    8 de Agosto de 1993



 
 
        






    GAIVOTA





Gaivota que ergueste as velas
orgulhosa e altruísta.
Ao lembrar  as caravelas
dum passado quinhentista.

Tua quilha há-de sulcar
o mar daqui aos Açores.
Para ao mundo provar
que somos navegadores.

Mesmo com a aparelhagem
que existe hoje em dia,
é preciso ter coragem,
audácia e valentia.

E quando aos Açores chegares,
grita com todos os pulmões,
orgulhosa por honrares
o povo de duas nações.




                    7 de Março de 1991













    ACAPULCO





Andam crianças na rua
a pedir por caridade
que dês de boa vontade . . .
Que triste de vida é a sua!

Anda assim tanta criança
p'las ruas abandonadas,
enquanto em praias privadas
"Él hombre" rico descança.

Um ou outro forasteiro,
sempre dá algum dinheiro,
por vergonha ou por vontade.

Para esquecer a pobreza
enche os olhos da beleza
que lhe oferece a cidade.




                    28 de Março de 1993




                    


        







A BORDO DA GAIVOTA





Em noite de clara lua,
no Pacífico navegando,
a Gaivota continua
as ondas do mar cortando. . .

No firmamento as estrelas
uma a uma cintilando,
o vento a soprar nas velas,
para casa a vai levando . . .

Se alguma vaga ela teme,
um tanto ou quanto estremece . . .
Mas à mão firme no leme,
logo a Gaivota obedece!

Cumprirás tua missão
Gaivota que ao mar te atreves
Orgulho da tripulação,
Honra do teu capitão,
o destemido Horácio Neves.




                    1 de Abril de 1993






         


    À GAIVOTA





Isto é que é uma vida bela
que eu sempre hei-de recordar
Andar na Gaivota à vela
por sobre as ondas do mar.

A vaga entra na proa
e vem sair pela ré.
E o marinheiro continua
agarrado ao leme e de pé.

Se alguma vaga se embrulha
e vem bater no costado,
a Gaivota então mergulha
para sair do outro lado.

Enquanto a Gaivota tiver
um capitão da Prainha,
ela poderá sempre ser
de qualquer mar a rainha.




                    2 de Abril de 1993






 


       A GAIVOTA





A Gaivota vai cortando
as ondas do mar uma a uma.
E atráz de si vai deixando
um risco de branca espuma.

A Gaivota fez um risco
nesse mar azul bonito,
Da baía de San Francisco
às pedras negras do Pico.

Navegou em calmaria,
navegou contra procelas.
Revivendo hoje em dia
O tempo das caravelas.

Fez uma grande aventura
esta casquinha de nóz.
Recordando assim a bravura
"Dos nossos egrejos avós".




                    2 de Abril de 1993




                    
 


AOS  RÁDIOS AMADORES





Todos os dias  à mesma hora,
vai o Noel para o ar,
logo ali sem demora
a Gaivota procurar . . .

"Gaivota, Gaivota, Gaivota,
aqui Noel, São José
diz-me qual a tua rota,
e tua posição qual é . . .

Navegamos quadrante Norte
Dezoito desasseis latitude;
O vento não sopra forte
Cento e três longitude . . .

"Escuta Horácio, o telefona toca,
quem, é, já te vou dizer,
é a família da Gaivota,
que notícias quer saber"
























Chama mulher, chama filho,
chama irmão, chama pai . . .
e a Gaivota com mais brilho
a caminho de casa vai. . .

A estes Rádio-Amadores,
Pita e Reis da Venezuela
ao Altino dos Açores
que também pergunta por ela . . .

Das Canárias o Rafael,
Carlos Pollo do Verde Cabo,
da Califórnia o Noel.
a Todos MUITO OBRIGADO!




                    4 de Abril de 1993






                
 


AO MANUEL  ÁVILA





O Manuel Aventureiro
quando à gaivota chegou,
tornou-se logo marinheiro
e nunca mais a abandonou.

O Manuel adora o mar
seja ele baixo ou fundo
e a Gaivota pode contar
p'ra com ele na volta ao mundo.

O Manuel foi sempre amigo
e usou camaradagem
sempre pronto e atento ao perigo
para que houvesse boa viagem

Obediente ao capitão,
cumpridor da sua rota
o Manuel deu o coração
às tábuas desta Gaivota.





                    7 de Abril de 1993












OBRIGADO FRANKLIN.





A Gaivota é temível . . .
Mar nenhum a afronta !
Pois ela tem por combustível
Mil galões de "Porra Tonta."

Se uma vaga alta vem,
A gente pula no "beliche"
E a Gaivota até tem
"A good sex on the beach . . . "

A Gaivota irá de lado,
Navegando como manda a lei.
Contente por ter parado
No Captain's Cove  em Monterey.

Da Gaivota a viagem,
Está quase chegando ao fim.
Obrigado pela camaradagem,
E tudo o mais Franklin.


            


                    17 de Maio de 1993
 


    NÃO É LISBOA !





O Horácio à minha frente,
em alto som apregoa:
- Repara José a gente,
está chegando a Lisboa !

Meu Deus o que é que eu vejo
vermelho e com tanto brilho ?
O que faz a ponte do Tejo
em terras de João Cabrilho ?

Agarrado ao leme e de pé,
ainda nele acreditei.
Mas não via o D. José,
nem tão pouco o Cristo Rei.

E ao entrar da barra,
não vi do Tejo a mansidão.
Nem ouvi uma cagarra . . .
Não era Lisboa ! Não !

Podem por Cristo Rei em Marin
e na baía uma canoa,
San Francisco mesmo assim,
tu nunca serás Lisboa.




                    19 de Maio de 1993


                            

            
 


BENVINDA SEJAS GAIVOTA





Benvinda sejas Gaivota
Ao teu porto de largada,
Findando assim uma rota
Há muito tempo sonhada.

Foste navegando sòzinha,
Por vezes com outros veleiros,
Para ir beijar a Prainha,
Terra dos teus marinheiros.

Sentiste o perfume da hortênsia,
Viste do Pico a majestade,
E agora na sua ausência,
Até sabes o que é saudade.

À Terra dos teus marinheiros
Foste prestar vassalagem,
Pois foram eles os primeiros
A fazerem tal viagem.

Tua quilha deixou escrito
Sobre as ondas a bailar,
Que os marinheiros do Pico
Ainda são lobos do mar.




                    19 de Maio de 1993


 


    PONTA DE SAGRES





"Aqui acaba a Terra e o mar começa".
Esse mar que Portugal atravessou,
e com o qual muitos anos lutou,
para novos mundos desvendar.

Se do alto do farol, porventura,
vires o oceano ameaçador,
batendo os rochedos com furor,
sentirás o perigo da aventura.

Mas Portugal enfrentando o perigo,
e fazendo do mar seu amigo,
desvendou assim o seu mistério.

E tu Ponta de Sagres,
serás testemunho dos milagres
que fez outrora o nosso Império.


            


                Sagres, 15 de Junho de 1971
     


    VERSOS





Quando versos estou a fazer
não sei como hei-de acabar . . .
Fico com o sangue a ferver
e com a alma a sangrar.

Se a inspiração me vem,
até a fico temendo
por parecer que é alguém
que por mim está escrevendo.
 
Vêm com força tamanha,
como um tufão de vento,
que a mão não acompanha
o que vai no pensamento.

Será isto o meu condão,
ou algo sobrenatural ?
Ou serei a reincarnação
de algum poeta imortal?



        

                    12 de Agosto de 1993








       



    HÁ QUEM PEÇA





Há quem peça a Camões
para da campa se erguer.
E com novas armas e barões
outra Epopeia escrever.

Há quem peça pr'a que o Gama
volte a juntar sua frota,
para voltar de novo a fama
e dar ao mundo outra rota.

Há quem peça ao Marquês
desterrado pr'a Pombal
para vir cá outra vez
fazer limpeza a Portugal.

Não se despreze o passado
de tanta lágrima e tanta dor
mas em Portugal hipotecado,
ainda há gente de valor.

        
          


                20 de Novembro de 1985












    ESTAMOS SÓS





Estamos sós
finalmente
As horas passam
rápidamente
O relógio não para. . .
Vai numa louca correria,
tornando mais curta
a vida
que de si já não é comprida. . .
Estamos sós.

O tempo é pouco.

Temos muito que dizer. . .
E, desperdiçamos o tempo
a pensar
como o havemos de aproveitar.


            


                    25 de Outubro de 1970
 


A VERDADE E A MENTIRA





A verdade e a mentira
foram ter com a razão
e ambas a ela pediram
qual a sua opinião.

A mentira aparece
e diz em tom de vaidade
que sempre e quando quizesse
poderia falar verdade.

A verdade humildemente
e um tanto ou quanto chorosa
diz que a mentira só mente,
será sempre mentirosa.

A razão infelizmente
está na realidade
que quando a mentira diz que mente
está dizendo a verdade!





                             29 de Agosto de 1991
 


    A MÃO DA JUSTIÇA





Levantei-me alta noite.
E, em silêncio
fui abrir a porta a quem batia.
Parei espantado e receoso
do que na minha frente via.

Esperava tudo  . . .  e, mais alguma coisa.

Nem que fosse o próprio Diabo,
de forcado às costas a vomitar lume,
ou a morte armada com foice
de um grande e afiado gume.

Mas, ali em frente,
à altura dos meus olhos,
flutuando no ar e a brilhar na escuridão,
estava sòmente uma branca mão.
A MÃO DA JUSTIÇA.





                    22 de Abril de 1989
 


    A MINHA MÃE





Se eu pudesse quereria voltar atràs
aos ricos e belos tempos de criança.
Ou, tornar muito mais viva a lembrança
daqueles distantes dias que fui rapaz.

Se eu pudesse de certo, Mãe, que  faria
este  tempo e o relógio  desandar,
para minha vida então recomeçar
naquele belo instante que nascia.

Se eu  pudesse apagar da minha  vida,
alguma dor, desgosto ou  até ferida
que eu sem querer causei em teu coração

Viveria assim muito mais contente,
nem teria que pedir-te humildemente
que  só me desses agora o teu perdão !


            


                    7 de Agosto de 1993











         


    A MEU PAI





Várias vezes me bateste,
muitas delas sem razão . . .
Doutras vezes só perdeste
as que cairam no chão . . .

Tentavas dar-me uma lição
quando ainda era menino,
dizendo que quem dava o pão
também daria o ensino . . .

Quando em teu leito de morte
pouco falar já podias,
sei que sentiste remorso
das vezes que me batias . . .

Mas quando este mundo deixaste,
cumprindo da Natureza a lei . . .
eu até tive saudades
das pancadas que levei . . .





                    20 de Julho de 1993
 


    A MINHA SOGRA





Por não me agradar  às vezes o sabor
do pão de milho  ou caldo de peixe
Não quer dizer que eu alguma vez deixe
de dar ao seus cozinhados todo o valor.

Deveria por vezes estar calado
no prolongamento d'alguma discussão
Mas interessa-me saber quem  tem razão,
para que eu não ande na vida enganado.

Há os que por terem mais experiência . . .
têm uma tamanha persistência
e suas  virtudes  sempre enaltecem.

Também já aprendi através dos anos
que  nunca somos tão bons como julgamos
nem os outros são tão más como parecem.


            



                    11 de Agosto de 1993
    


    A MANÉ ROQUE





À terra fria, seu corpo baixou . . .
E a alma daquele que aqui jaz?     
Que cante como em vida cantou
E que no Além descanse em paz.

A vida que viveu em tempestade . . .
No decorrer e labutar do dia a dia
Deixou em muitos agora a saudade
Das histórias e cantigas que dizia.

De alegria e de riso era uma fonte . . .
O Manuel Pereira da Ponte,
Que MANÉ ROQUE, sempre se chamou.

Embora no mundo tivesse pouca sorte
Foi um daqueles que da lei da morte
Cantando e rindo se libertou.




                    10 de Setembro de 1993


        












    VIVA O REI!





Viva o Rei! Grita alguém.
Morra o Rei ! Alguém gritou.
E, assim se gera a confusão
que num momento espalhou
a revolta Nação.

Abaixo os capitalistas,
sanguessugas aldrabões,
alcoviteiros, vigaristas
secretos e hábeis ladrões!
Acabe-se com os taxistas
possuidores de acções
que passeiam e dão nas vistas
com os seus doirados botões!
E se dizem humanistas
roubando aos pobres tostões . . .





























Acima os socialistas
homens de grande saber.
Vivam os comunistas
venham eles p'rao poder
Nós somos liberalistas
queremos direitos ter.
Acabe pr'a sempre a censura
Haja direito de pensar.
Abaixo com a ditadura
que à fome nos ia matar.

Nós queremos felicidade
e o pão de cada dia.
Viva! Viva a liberdade,
acima a democracia !
Entre toda esta gente
que em altas vozes gritou
Houve algum pobre inocente
que com uma bala chocou
e então para sempre
a sua boca calou.

            



                    29 de Abril de 1974







    CHEQUES

O pobre honradamente
as suas contas pagou,
enquanto o rico infelizmente
deu-me um cheque que não passou
e diz descaradamente
que o banco se enganou.

Eu disse que ele era um ladrão
na frente de outro freguês.
Ele diz que tem razão
que eu o deposite outra vez
e que eu verei então
se não foi erro que o banco fez.

O cheque foi redepositado,
vindo para trás seguidamente
O indivíduo fica zangado
E eu chamo-lhe ladrão novamente
Diz que vai falar co'advogado
para fazer o "sue" à gente.

Como o cheque não chega
a uma certa quantia
a polícia não pega
em tão grande velhacaria
e é assim que se nega
o pão nosso de cada dia.

O que é que vou fazer?
Pois francamente não sei . . .
O cheque não vou comer
porque a fome não matarei . . .
mas eu não posso compreender
esta puta desta lei.

                9 de Setembro de 1993






OS IGNORANTES, AFINAL, SÃO MAIS FELIZES !





Se o homem, esse bicho, esse enigma,
deixasse de viver em pluralismo
e abraçasse de veras o ignorantismo,
da própria vida ele teria mais estima.

Se nas escolas, liceus e universidades,
sòmente o nada que ele é fosse ensinado,
não andaria parte da vida enganado,
misturando mentiras com verdades.

Para quê trabalhar até Sol posto,
ganhar a vida com o suor do seu rosto,
cravar na alma fundas cicratizes ?

Abre o livro e estuda a lição . . .
Que no fim chegarás à conclusão,
que os ignorantes afinal são mais felizes!





                    5 de Julho de 1993
 


SUPREMA INJUSTIÇA




Por eu ter dito a verdade
nas colunas do jornal,
houve uma sociedade
que me levou a tribunal.

Seus supremos dirigentes,
triste figura fizeram.
Cobardes, incompetentes
Nem uma palavra disseram.

Não houve um só director
que me fizesse acusação.
Delegaram outro senhor
que se julga um sabichão.

Eu hei-de sempre criticar
o que não tiver valia.
Já é tempo de sanear
os Salazares de hoje em dia.

Algumas das sociedades
que se dizem fraternais,
são um covil de cobardes
de toutinegras e pardais.

Vai aparecer meus senhores
quem recta justiça faça,
destronando os ditadores
vergonha da nossa raça.


                15 de Abril de 1993






    RAZÃO





Nada me há de parar
Nem a bala dum canhão . . .
Nem um novo Salazar
Nem a própria Inquisição.

Seguirei o meu caminho
Como um homem d'acção,
Nem que eu faça sòzinho
A própria revolução.

Até ao fim hei-de lutar
Mas por uma justa lei.
Se o meu sangue derramar . . .
Com honra o derramarei.

Hei-de ser o pioneiro
Com a bandeira da verdade.
Já vivi no cativeiro . . .
Vivo agora em liberdade.

Avançarei sempre em frente
Erguendo a constituição.
Mostrarei à nossa gente
Onde é que está a razão.
        
            



                29 de Abril de 1993







SE EU PUDESSE . . .





Se eu pudesse
bem alto cantar
à Terra e ao Mar
tudo o que eu penso . . .


Se eu pudesse
sempre escrever
para o mundo ler
sem ficar suspenso. . .


Se eu pudesse
desmascarar nos jornais
quem são os pardais
dos campos daninhos. . .


Se eu pudesse
fazer nova história
com mais glória
e pergaminhos . . .






















Se eu pudesse
misturar as cores
e fazer novas flores
da revolução . . .


Se eu pudesse
julgar os senhores
usurpadores
da livre expressão. . .


Se eu pudesse
com a minha bravura
acabar a ditadura
na comunidade . . .


Se eu pudesse
então gritaria
com grande alegria
já há liberdade. . .

        



                24 de Julho de 1993
 


    HÃO-DE VER . . .





Não há força que mude
o meu livre pensamento.
Nem a chuva nem o vento,
nem relâmpago nem trovão.
Poderá levar algum tempo
mas vocês hão-de ver
seu eu tenho ou não razão.

Não há verdade que me assuste
nem mentira que me espante,
até que venha de um farfante
que se julga imortal
e que há-de ir parar ao orco
por juizo dum tribunal
pois que não há nenhum porco
que não tenha o seu Natal.





                    1 de Agosto de 1993
 


    AS MEDALHAS




Das medalhas a distribuição
foi um trabalho mal feito
pois há por aí tanto aldrabão
que as tem agora ao peito.

Foram dadas a senhores
e a quem as encomendou
para pagar os favores
de quem ofícios assinou . . .

Pelas suas artimanhas
recebeu uma o "Cicerone"
E outras foram p'rás montanhas
do vale do "silicon" . . .

As medalhas de latão . . .
foram dadas em festas de asseio.
E uma alta condecoração
é mandada pelo correio !

Por tanta medalha oferecer
a senhoras e senhores,
ficamos a conhecer
quem são os engraxadores.




                    15 de Outubro de 1993

        







    OFERTA A CUBA!





Quando na Guiné, Moçambique e Angola,
lutava a flor da nossa mocidade
mandavas soldados da mesma idade,
que melhor seriam estar na escola.

Quando da Russia tudo aceitavas
pedido p'lo comunista Senhor Fidel,
tudo parecia manteiga e mel,
até a América ameaçavas.

O melhor que Portugal até faria
para encher essa barriga vazia
e compensar-te por todo o teu trabalho,

Era mandar-te por Santo António,
ou até mesmo por algum demónio
uma saca de bolotas de carvalho.





                    6 de Agosto de 1993














BOBO DA COMUNIDADE





Há por aí certos senhores
que escrevem para os Açores
ao Governo Regional.
A contar mexericos
para ficarem mais bonitos
aos olhos de Mota Amaral.

Usaram papel timbrado
e julgo eu que assinado
por pena de tabelião.
Pois eu estou muito sentido
por também não ter merecido
tão  honrosa distinção. . .

Eles com as suas graxinhas
vão recebendo medalhinhas
no dia das comunidades.
Mas ainda há-de chegar a hora
que alguém deitará cá fora
um grande saco de verdades.

Se se vissem ao espelho
mesmo que ele fosse velho
reflectiria com fidelidade.
E veriam no dia da festa
em letras gordas na testa
"Bobo da comunidade . . ."



                8 de Agosto de 1993
 


    PARADAS





Há na Califórnia dinheiro a mais
anda mesmo aos  trambolhões
só quem vai aos arraiais
às festas e procissões.

De tarde vestem lantejoulas
de noite vison e veludo
e algumas todas tolas
parecem vestidas d'entrudo.

Em algumas das nossas paradas
ouvem-se meninas aos ais . . .
Arrastando capas pesadas
mostrando a fortuna dos pais . . .

Há crianças tropeçando
com vestidos à lençol
óculos escuros usando
mesmo que não haja Sol.

Eu julgava que a nossa festa
era à moda portuguesa.
Como é que se compreende esta
de haver uma banda chinesa ?



















As rainhas e suas aias
já parecem ovos moles.
E homens vestidos de saias
a tocar gaitas de foles?

E há cada gajo emproado
com atitude de não me rales
leva a "beeper" num lado
e no outro o molhe de chaves.

Deve-se a tradição aguentar
e usar boas maneiras
mas já é tempo de acabar
com tamanhas asneiras.


Há alguém sem relutância
que pr'a consigo está dizendo:
-À custa desta ignorância
as algibeiras vou enchendo.



                

                    10 de Agosto de 1993
 


          SAPATEIA





A Sapateia imigrou
foi a última a chegar.
Assim que o dollar ganhou,
foi a primeira a voltar.

A Sapateia está triste,
coitada já não atina.
Porque a ceia não existe
e em vez de jantar tem "dinner".

A Sapateia ao regressar,
encontrou tal confusão,
que pr'América quiz voltar,
dentro do mesmo avião.

A Sapateia na verdade,
será sempre Açoriana.
Mas quer ter a liberdade
de viver à Americana.




                                              14 de Junho de 1991













QUEM TEM CULPA?





Já não se joga ao botão,
nem ao bilro. Ninguém nega
Já não existe o pião,
Nem se brinca à cabra cega.

Agora e só televisão
e jogos computarizados.
Já nem sequer se beija a mão.
Sao todos uns mal-criados.

Já não há trilhos nem eiras,
Nem sebes feitas de cana
Não há trempes nem peneiras,
Nem cordas de espadana.

Já não há xaile de cadilhos,
Nem farneis nem bornais.
Os avós culpam os filhos
Quando a culpa é de seus pais

E então para desculpa
de tão grande retrocesso
toda a gente pôe a culpa
ao malvado do progresso.


                


                                  2 de Janeiro de 1977
 


    CONTROVÉRSIA





Filomena já deixou de existir . . . !
Madalena prostituta já não é . . .
E ainda alguém  vai descobrir
que Maria era amante de José!

De tanto procurar mas sempre em vão
Fé, crença, até vida se destroi
E alguém vai chegar à conclusão
que o Judas afinal foi um herói . . . !

E Cristo à Terra será chamado . . .
Para novamente ser trocado
por outro ladrão, o moderno Barrabás.

E injustamente  será julgado
A não morrer na Cruz cruxificado
Mas em  hermética câmara de gás.


            


                    7 de Outubro de 1992
 


QUE TRISTE ESTADO





É noite . . .
O vento sopra com rudeza . . .
Que força tem a Natureza,
pois se foi Deus quem a deu
p'rao homem d'Ele se temer
e assim compreender
que este mundo não é seu.

Oh minha alma !
Que imploras para este corpo cansado
como peso tem o bronze?
Já são vinte e trêz horas
e é tão triste o meu estado
que a meus olhos parecem onze. . .





                    1 de Março de 1968
 


        SOLIDÃO







Estava só.  Sòzinho!
Nem sequer o mocho piava.
Nem tão pouco o vento nas árvores soprava.
Era tudo silêncio à minha volta.
Comecei a andar . . . devagarinho
a ver se já despontava a Lua.
Mas, nem um raio de luz sua
iluminava minha alma quase morta!
Não havia sombras do arvoredo.
Nenhuma estrela no Céu brilhava.
Então vi que só me rodeava;
O silêncio, a escuridão e . . .  o medo.


            


                    13 de Junho de 1967
 


FORTE  PECADO





Luz apagada
Lua minguando
Maré subindo.
Mulher cansada
Peito ofegando
Criança dormindo.

Árvore tombada
Coruja piando
Folha caindo.
Água passada
Pomba arrulhando
Vento rugindo.

Mente afastada
Amor presente
Coração calado.
Ideia vairada
Amor ausente
Forte pecado.


     


                    2 de Dezembro de 1979



                           



        



    TERROR





No silêncio da noite aterradora,
só eu ando sem saber por onde.
Até a minha sombra se esconde
e ouço uma voz assustadora.

Continuo parado no caminho.
Ouço gritos, ais, até gemidos.
E ao longe ecos perdidos.
Mas, quem é, se estou sòzinho?

Silêncio com vozes tão perto?!
E eu parado, mas inquieto
que amanheça e seja dia.

Tudo isto é uma ilusão.
Mas, fico crendo que a solidão
é a pior companhia . . .


        


                    5 de Maio de 1968














OUTRO DIA PARA PENAR





Alguém te deu um aviso
Que não quizeste aceitar.
Pérolas aos porcos deitar . . . ?!
É de quem não tem juízo.

Tu tens certa relutância
E pensas que pouco vales.
A mãe de todos os males
Será sempre a ignorância.

Julgavas ser um alívio. . .
Mas tornou-se em martírio . . .
Nem és livre de pensar.

Quando o Sol de manhã desponta,
Tu acrescentas à conta
Outro dia para penar.





                    8 de Outubro de 1992
 


    C.I.S.M.I.





Bastou só ouvires a palavra
para te recordares do que passaste.

Quantas vezes na Atalaia rastejaste,
amaldiçoando a própria cama
em que muitas vezes te deitaste
com a farda coberta de lama ?

E tu que és soldado Português,
julgas que foi em vão
as noites que dormiste no chão
com a farda toda encharcada ?

Podes estar certo de que não,
pois só tu tens o dever
de lutar para defender
"A ditosa Pátria nossa amada."


        


                    Tavira, Junho de 1971
 


    À  ÁGUA





És tu que passas nos montes
e és benta nos altares.
Corres nos rios e nas fontes,
nos oceanos e mares.

És tu que sais da nascente
e cantas pelas cascatas,
deixando o homem contente
quando a sede lhe matas.

Bendita . . .  oh água cristalina
que com a graça divina
nos enches o coração,

quando no dia baptismal
o pecado original
tiras a todo o cristão.





                    3 de Fevereiro de 1968
         


    QUERO VIVER





Sinto em mim algo diferente.
Uma coisa que nem sei explicar.
Por vezes ponho-me a chorar
e outras a rir de contente.

Sinto em mim um combate decisivo
que durará enquanto eu viver.
É um medonho desejo de morrer.
É uma firme vontade de estar vivo.

E assim os dias vou passando.
Uns rindo, outros chorando.
Mas, será isto o que me convém?

Sei que a mim mesmo me iludo.
Mas, quero viver porque a vida é de tudo
ainda o melhor que o homem tem.


            


                27 de Novembro de 1969
 


NÃO DURMAS MAIS





Amanhece . . .

O sol sai de entre os montes.
E a fresca água das fontes
na ribeira vai correndo.

Pela janela mal fechada . . .
entra o Sol.
Fico mal disposto
por me vir bater no rosto
despertando-me do meu sono.

Mas se ele de tudo é dono
e enche o quarto de alegria ?

Que pensamentos ideais,
e ele diz:
- Não durmas mais.
Pois não vês que já é dia ?


            


                    2 de Fevereiro de 1968
 


O MAR TAMBÉM AMA.





Já reparaste no Mar
em dias de calmaria ?
É uma beleza sem par.
Tudo encanto e poesia.

E nas noites de Lua cheia,
já ouviste o seu fulgor?
É quando ele escreve na areia
autênticos poemas de amor!

E nas praias ao luar,
nunca ouviste o seu cantar
como canta uma sereia?

Mas foi errado o teu pensar,
pois era ele a recitar
os seus poemas à areia.


        


                    26 de Abril de 1970
 


    ROMANCE





Já dizem que sou fatalista
na minha forma de escrever.
Mas enquanto vida eu tiver,
serei sempre um realista.

É um pesadelo medonho,
quem anda na vida a sonhar.
Mas poderá vir a encontrar
a realidade num sonho.

Só tu sabes porque és mulher,
que eu ando a lutar para ter
o que não está ao meu alcance.

Adivinhaste! É verdade . . .
Eu estou a sentir saudade
do realismo dum romance.


            


                    13 de Agosto de 1993
 


A RAZÃO E A VERDADE





Dentro do meu pensamento
há uma preocupação.
É o combate violento
da verdade com a razão.

Nem a chuva nem o vento
formam tal  tempestade
Eu nem sei como sustento
vontade contra vontade.

Estou como um pássaro no ninho,
quase morto cheio de medo.
Por não saber o caminho
p'ra sair deste segredo.


        


                    9 de Agosto de 1967
 


    A LUZ VERMELHA





A luz vermelha na ponta do cais
avisa os barcos dos perigos que correm. . .
E se tu a mão não me dás,
irei para o mundo daqueles que morrem. . .

Eu sou um barco fugido à tormenta
que procura abrigo num porto seguro. . .
Se a tempestade comingo rebenta,
diferente do teu será meu futuro. . .

Eu sou um barco sem leme nem velas
ando à deriva nas ondas do mar. . .
Luto em vão contra as procelas,
mas com esperança de me salvar.

A luz vermelha na ponta do cais
avisa os barcos dos perigos que correm . . .
E como tu a tua mão me dás,
já não vou para o mundo daqueles que morrem !


            


                    23 de Outubro de 1973
 


    LUZ E FÉ





Foi à luz duma candeia
que estes versos comecei.
De luz estava a alma cheia!
Quando os mesmos acabei.

Oh luz . . .! Símbolo da fé
de todo o Cristianismo.
Que eu me mantenha de pé,
mesmo em frente to abismo.

Minha alma está iluminada,
mas fica em candeia apagada,
se a invade a escuridão.

Queira Deus que fique pura
antes de eu ir pr'á sepultura
p'ra gozar da salvação.


            


                21 de Novembro de 1967
 


           A UM PADRE
    




Quando do alto púlpito pregavas.
que tivesse-mos virtudes e moral,
em casa às escondidas saciavas,
o pensamento e o desejo carnal.

A boca do povo ?! Essa ninguém tapa . . .
Cobarde, que pr'América fugindo
a Santa Igreja deitou-te a capa,
mas olha que Deus não está dormindo.

S'algum dia a Igreja decretar
que os padres serão livres de casar,
isso é que vai ser bonito então.

Muita gente se há-de rir na festa . . .
Porque alguns terão cornos na testa
e terá muito mais brilho a procissão.





                6 de Outubro de 1993
 


    ROSA



Tu eras rosa silvestre
no meio da multidão,
e senti o perfume agreste,
como se foras botão.

A ti rosa perfumada,
com teu encanto sem fim,
quereria ver-te transplantada
num canto do meu jardim.

No meu coração há um altar
onde só cabe uma flor.
mas, no meu jardim há lugar
p'ra rosas de qualquer cor.

Irradiava como o lume
das tuas pétalas o fulgor
mas o cheiro do perfume
fazia esquecer a dor.

Até que a terra me coma
ou me queime  a fogueira
nunca esquecerei o aroma
dessa rosa brasileira.


        
                    17 de Janeiro de 1992
 


                     A UMA AMIGA





O Silencio dos teus olhos,
era o grito de angustia da tua alma. . .

O receio que alguém descobrisse
a estrada de pedregulhos
por onde te levavam teus pés,
fez com que seguisses
em frente e fosses quem és. . .

A nuvem que tapou teu Sol,
foi dissipada pelo furacão de teus suspiros.
E, quando olhaste o céu,
já não era o Sol que lá estava.

A luz e o Calor,
que por momentos julgaste sentir,
tornaram-se na frieza e escuridão da noite.

Esquece os tormentos de ontem.
Vive a alegria de hoje.
E quando vier o amanhã,
nao o desperdices! Aproveita-o.

                                         
                  


                    22 de Junho de 1990                           
 


    MEXERICO





Fala o velho, fala o novo,
dizem coisas, salvo seja . . . ,
Deixa falar esse povo,
o seu mal é a inveja.

O que é que essa gente quer?
Não sei que ideia é a sua.
Para que se andam a meter
com a minha vida e com a tua?

Toda essa gente má
que não nos deixa viver em paz,
nenhum se escapará
às garras de Satanás.

Não tenhas medo pequena
de tantos sorrisos banais.
Gosto muito de ti, Lena
Como amiga, nada mais.





                    19 de Maio de 1970

 


  ESTRELA PERDIDA





És uma estrela perdida
Num firmamento vazio
Dás calor . . .  recebes frio
Jamais serás compreendida.

Dessa tua luz o clarão
Alguém estava à espera
Cegaste quem cego era.
Não estranhou a escuridão.

Através do firmamento
Contra a chuva, contra o vento
Continua tua carreira.

Dá largas ao pensamento,
Nao estragues o teu talento
Com quem ama a cegueira.


            


                8 de Outubro de 1992
 


     SE É SEGREDO





Em segredos não acredito,
Nem nunca acreditarei . . .
Mas não devias ter dito
Aquilo que te contei.

Verdade é que eu nunca vi
viver em tão grande ilusão,
mas no que dizem de ti
sempre há alguma razão.

Quando tu falares comigo,
de ti ou de outras mulheres,
olha bem e mede o perigo
daquilo que tu disseres.

Não me digas se é segredo,
se é segredo não me digas . . .
não é que eu tenha medo,
mas já estou farto de intrigas.





                                  29 de Agosto de 1991
 


    O ALÉM





Dou largas aos pensamentos,
ferve-me o sangue nas veias.
Entrelaçam-se e fazem teias,
tolhendo-me os movimentos.

Por mais desejos baralhados
que o meu coração consinta,
vejo raios de luz extinta
mesmo com os olhos fechados.

Ando por vários caminhos
atapetados de espinhos
com minha alma sangrando.

É verdade! Sei que não minto,
porque não vejo mas presinto
o além que está chegando.


            


                    8 de Agosto de 1993